
Há uns dias atrás...
Toca uma, toca duas, toca três…peço que pare, mas continua. Não é possível estar a pedir ao meu telemóvel que simplesmente desligue o despertador…estou ensonada, quero dormir. Ganho balanço e levanto-me, a partir daí parece que tudo funciona como uma dança. Banho, roupa, pequeno-almoço, o último olhar para o espelho e sair…
Não acho normal, está a chover…porque é que ninguém me disse que hoje era dia de calçar as botas? Não vou voltar atrás, deixo-me ir…sinto os pés molhados, o cabelo a encolher e tenho a sensação que o Inverno não passou. Aí está ele, o meu autocarro…entro, fico de pé a ouvir as histórias hilariantes do fim-de-semana de pequenos adolescentes à espera de crescerem. E apesar daquele barulho ensurcedor gosto de ouvir as suas “aventuras”.
Ainda me sinto dormente, encosto a cabeça ao vidro e tento fechar os olhos mas os solavancos do autocarro não me permitem cair no sono. O autocarro pára, saem algumas pessoas e de repente, ao olhar para a paragem, vejo um vulto familiar. Aquela cara, o ar apático, e algumas características faciais que reconheceria em qualquer lugar...encontrei-o no fundo do baú das minhas memorias.
Recuo cerca de 10 anos e ele está lá. Recordo-me da sua alcunha, da forma como era alvo de gozo dos outros miúdos, e pela forma como vivia o seu mundo. Para todos nós ele não era normal, havia quem o achasse "deficiente"…mas na verdade a sua única deficiência era atenção. Deve ter sido por isso que durante algum tempo ele achou que eu era o amor da sua vida. Como é possível uma criança na entrada da adolescência sofrer por amor ao ponto de simular um suicídio? Acho que na altura não dei grande importância, mas o facto é que ele ia atirar-se, no entanto era provável que àquela altura conseguisse "apenas" partir uma perna.
Hoje não conheço o seu rumo, não sei onde pára mas o facto é que marcou de alguma forma parte da minha vida. Durante algum tempo senti a sua perseguição, por vezes incomoda mas sem malícia. Por vezes pensava...mas porque é que apenas os rapazes “assim” se interessam por mim.?Quando somos crianças as nossas inseguranças são tão simples, por vezes até ridiculas... mas naquele momento era o maior dos dramas.
Anos mais tarde percebi que isto não era um defeito, era mesmo feitio. Por mais espontânea e impulsiva que fosse sempre fui atenta, sempre dei importância aos outros (o que nem sempre foi bom), e foi esta atenção que sempre levou até mim pessoas completamente à parte.
O autocarro partiu e fiquei a pensar no seu gesto à 10 anos atrás…de alguma forma fui importante para ele. Por mais insólito que seja, tudo tem o seu significado…
Até Breve!
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